sábado, 12 de fevereiro de 2011

Jornal de ontem

De cabeça para baixo. Minhas costas doem, minha cabeça lateja pela grande quantidade de sangue que é obrigada a receber. Seria bom se conseguisse alcançar meu pescoço com as mãos, mas meus braços parecem pesados demais e não consigo movê-los. Estranho mesmo seria se eu não estivesse acostumada com isso tudo. Resiliência se tornou meu nome e me reconheço assim, somente assim. "Ei, você, menina dos olhos cor de gelo" "Resiliência" "Como?" "Meu nome" E geralmente as conversas acabam assim. Como eu disse: r-e-s-i-l-i-ê-n-c-i-a. São onze letras, e não é difícil de memorizar. 

"Resiliência s. f.
1. Fís. Propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação.
2. Fig. Capacidade de superar, de recuperar de adversidades."

O problema é que eu, ao contrário da palavra, sou difícil de memorizar. De me guardar. Queria poder dizer o contrário, mas eu até que prefiro assim. Me conformei, me confortei. Algo ruim acontece, e eu finjo que não aconteceu. Estico a perna sobre a ferida e continuo fazendo o que tenho que fazer. "Ande, mais um pouco, um  pouquinho só" grita aquele otimismo irritante lá do fundo da minha cabeça. Mas tudo bem. E quando não está tudo bem? Nunca. Não coloco não no começo de uma frase em que a segunda palavra é "está", a terceira é "tudo" e a quarta é "bem". 

Quem sabe eu sou resiliente demais. Veja bem, você que quer sofrer menos, você que pensa que isso é fácil e é tudo uma questão de auto educação: não é! Mas que surpresa agradável e que ninguém nunca diria. Nós, os resilientes, vamos te magoar, vamos pensar o contrário de tudo de bom que você nos diga. Ande, elogie-nos! Nós queremos pensar que é mentira para termos algo que superar! E nós rimos, rimos mais do que deveríamos. Somos invejados pelos desequilibrados, somos vistos como bonzinhos e ninguém desconfia. Nosso auto controle mantém tudo sob segredo, o que nos faz mentirosos para nós mesmos. E está tudo bem assim, obrigada.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Amarelinha

ZzzZ. ZzzZ. Ele vem me atormentar. Não posso dormir de um lado, muito menos de outro. O zumbido me entorpece até que pego no sono lentamente e sou induzida a um coma profundo de algumas horas. 
Vagamente acordo e ele ainda está lá. Ele me pergunta se pode me passar um café. Eu não consigo organizar minhas idéias e ele avança sobre mim. Antes que eu possa me mexer, ele me acolhe e fala comigo sobre algo que não entendo mais do que as vogais. ZzzZ. ZzzZ. Eu acordo e olho para os lados: não tem ninguém lá. 
Não passou de um sonho. Não passou de um sonho. Repito para mim mesma até me acalmar e conseguir mandar minhas pernas levantarem.
Infelizmente.

Toda noite quando me deito, ele volta. Aquele mesmo zumzumzum de sempre, sem desafinar nadinha. É como se uma sombra passasse por cima de mim. E eu não sinto medo. Não consigo. É como se uma parte de mim pairasse todas as noites sob meu corpo e me deixasse atônita até eu conseguir abrir meus olhos. Mesmo que fosse em sonho, eu não conseguia temer aquilo. Piscava e encarava o vazio todas as manhãs, esperando que houvesse algo novo me esperando. Como se aquele barulho que me acompanhava todas as noites fosse se tornar alguém, e um alguém que eu preciso tanto. Ainda não consigo colocar na minha cabeça que não passa de um zunido. Não passa de um zunido. 

Mas aquele fio de esperança sempre me mantém ali, colada. Elevo os travesseiros até as orelhas e continuo ouvindo. Como se uma abelha tivesse entrando em minha cabeça e perambulasse ali, livremente. E a pior parte de tudo isso é saber que se todo aquele barulho me deixasse em paz, me sentiria ansiosa procurando algo para zunir em minha mente de novo.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pequenos traços de si mesmo

- Eu sei.
- Você é meio convencida.
- É que...
- Tudo bem. Acalme-se. Você não sabe mesmo brincar.
- Eu não brinco.
- E qual o sentido de tudo que você faz, então?
- O que você quer dizer com isso?
- Quero dizer que sua vida é maçante e que é sua culpa.
- Minha culpa?
- Sua culpa.
- Ah, claro.
- Até quando quer manter essa discussão?
- Até quando quer mandar em mim?
- Até quando vai fingir que eu não sou você?
- Você não sou eu. Eu não sou você. Nós somos opostos. Preto e branco. Céu e terra. Água e fogo. Nós não somos a mesma pessoa. A mesma coisa. A mesma mente.
- Nós somos.
- Tudo bem. Nós somos. Digamos que somos... Porque não somos.
- Por que você sempre tem que ir pelo caminho mais simples?
- Por que você sempre tem que complicar tudo?
- Essa é minha tarefa.
- Me atrapalhar?
- Completar você.
Sabe quando você tem vontade de escrever mas não sabe sobre o que e sua cabeça fica dando milhões e milhões de voltas? Você cansa de encarar o vazio, como se ele estivesse te pressionando a fazer algo que presta.
Eu nunca termino nada que eu começo. Bleh. Acho que é porque eu não coloco meu coração em nada e não faço valer a pena.
Espero encontrar a tal força de vontade antes que seja tarde de mais.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Eminente

O Natal pra mim é só mais uma data que passa claramente despercebida ano após ano. Todas aquelas pessoas que nunca me dão um oi ou sequer se preocupam comigo, aparecem cobrando intimidades que eu não admito. E meus pais não admitem eu virar a cara para eles, ou qualquer coisa do gênero. Jantares disfarçados, escondendo mil e um sentimentos de mágoas guardadas pelo ano atrás de um sorriso. Eu odeio o natal. Eu sinto falta da minha vó, e tenho inveja dessas famílias unidas. Não consigo nem organizar um amigo secreto entre a minha família no natal. 
A coisa que eu mais gosto no natal é a decoração. Enquanto as pessoas emanam frieza entre seus sorrisos falsos, a decoração aquece e deixa tudo mais especial. É tão mágico você se preocupar em tirar da caixinha os enfeites e montá-los, encaixar as peças da árvore, ligar as luzes e vê-las refletidas nas paredes em suas muitas cores. 






Eu só acho que o natal deveria ser Natal. 
quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Estava

E era tudo tão perfeito. Mas eu queria que o tempo passasse o mais rápido o possível. Pensava que o tempo traria experiências mais felizes. Coisas para contar para os meus netos. Eu pensava que o tempo traria tudo para mim. Noites jogadas fora com os amigos, músicas cantadas no chuveiro, um beijo desesperado, uma família feliz, filhos perfeitos. Tudo isso deveria vir no pacote Vida. 
Ao invés disso, me acomodei. Esperei as coisas virem até mim enquanto ficava sentado. Olhando. Encarando. Não percebi as opções se esvaindo na minha frente. Tinha tudo em mãos para trazer para mim tudo o que eu queria, mas eu não via as coisas com essa clareza.
De repente estava na minha formatura do Ensino Médio, e a única coisa que podia chamar de minha era o meu cachorro. O suor passava pela minha testa com o peso de um milhão de pedras atingindo meu inconsciente. 
Eu não sabia mais o que seria de mim.
Encarar o nada não era mais opção, e todos ao meu redor pareciam saber disso. A pressão que meus pais colocavam sobre mim era nada comparado ao choro da minha mente sobre o quanto eu havia fracassado. Não conseguia mais ver nada claro para o meu futuro. Cheguei em um ponto crítico em que me pegava olhando no dicionário o que era "futuro". Sair de casa era um movimento forçado pela necessidade. Sentar em um banco perder tempo. Qualquer coisa. Mas nada mais me distraía. Todos me diziam que haviam me perdido, quando na verdade, nunca me tiveram. Consegui um emprego. Resolvi dar tudo de mim ali. Me fazer crescer, subir. Casei. Mas toda aquela melancolia não saiu de mim. Muito bem escondida, mas nunca fora de mim. As coisas foram se arrumando, mas não do jeito que eu queria. As coisas pareciam dar certo só para os outros. 
Vieram mais de mim. Mas não exatamente de mim. Aquilo pareceu me encher de esperança no começo. Ver que poderia fazer alguém, extremamente dependente de mim, ser melhor do que eu. Era assim que eu pensava até ver que isso se tornou verdade. A convivência com alguém que fazia o que eu fazia, mas melhor do que eu, se tornou insuportável. As coisas começaram e decair interiormente para mim. Voltei a época do confinamento. Me isolava do mundo pela antipatia. Tudo parecia me decepcionar. Tudo que um dia havia me dado conforto pelos instantes sem sentir a tristeza imensa invadindo meus pulmões, e a pesada máscara que a cobria.
Eles erravam. Eu esquecera que eles eram humanos. Humanos. Eu também era. Mas ninguém se preocupou em me contar esse detalhe. 
E tudo isso foi silenciado por uma bala na minha cabeça.
terça-feira, 2 de novembro de 2010

Entrelinhas

Mentir já era um habito. Já não chamava mais de mentira. Dizia para si que ocultava os fatos.

- Tudo bem?
 (Não. Eu virei um monstro. Eu não consigo amar alguém. Eu faço as pessoas gostarem de mim e depois eu deixo elas. Sempre. Ninguém entende isso. Isso é pior do que amar alguém com todas as suas forças. Você não conseguir amar alguém é como se seu coração tivesse sido arrancado, ou sequer você tivesse nascido com ele. Eu consigo o que eu quero e depois não quero nunca mais).
- Tudo.
- Novidades?
(Eu fiz de novo. Eu sempre faço. Eu menti. Eu magoei alguém por medo de magoar. Eu nunca saio magoada). 
- Nada novo, só as mesmas coisas de sempre.
(É, isso até que não é mentira. Eu sempre tratei os outros assim. Como se eu ligasse de verdade para eles. Queria eu conseguir. Eu não me importaria de ter o coração esfaqueado se ao menos eu tivesse um coração). 
- Continue assim, se isso te faz feliz.
(Não me faz feliz. Mas eu não consigo mudar isso).
 

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